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O VINHO BOM
Certa vez, alguém me afirmou que uma excelente prática para a saúde é tomar um pequeno cálice de vinho, antes do almoço. Não sei por que, acreditei - talvez por ser mesmo gostoso, o vinho tinto suave. Adquiri logo uma garrafa, coloquei na geladeira e comecei a degustar todos os dias uma pequena dose.
Era muito pouco, pois não gosto mesmo de bebida e não tenho tido muitos fatos positivos pra contar a respeito. Só que, sobre esta última afirmativa, tenho me baseado em pessoas que exageram no álcool; e nem é preciso falar sobre o mal que tal hábito acarreta.
Mas eu bebia pouco: apenas um cálice; pouquíssimo, na verdade! Que mal podia haver nisto? Então continuei por um largo tempo, sempre com o meu copinho, ao me sentar para almoçar. E estava acreditando que fazia mesmo bem, à minha saúde.
Acontece que, com o passar do tempo, fui perdendo tal hábito e, aos poucos fui me esquecendo disto e, há muito, nem me lembrava mais.
Encontrando um dia com a Fabiana, ela me falou deste novo projeto de uma obra coletiva e o tema era exatamente - "O Vinho".
Lembrei-me então que há muito tempo não adquiria aquilo que eu pensava ser bom para a minha saúde, favorecendo a circulação sanguínea e outras vantagens que aquela amiga, lá atrás, havia realmente me feito acreditar. Comprei então, do mesmo vinho, e está ali, na geladeira. E a partir daquele dia, voltei a tomar, quando me lembro.
Mas - isto foi só a título de introdução. Poderemos falar sobre vinho em vários enfoques. Eu, desde o primeiro momento, elegi o enfoque bíblico, em três situações diferentes.
Sabemos que era muito comum na época de Jesus, o cultivo da uva e do trigo. Muito utilizado nas refeições, o pão e o vinho. Eram elementos sempre presentes, em maior ou menor escala, na casa do rico e na casa do pobre.
Não faltam episódios na vida de Jesus, onde se falam destes dois alimentos. Penso que todos já ouviram repetidamente, sobre o milagre das "Bodas de Caná". E o que dizer sobre isto?
Tendo Jesus, o Filho de Deus, completado trinta anos, segundo a Bíblia, era hora de começar sua missão. Assim sendo, Ele foi procurar fazer o que todo bom israelita fazia: batizar-se nas águas do Rio Jordão.
Ao chegar àquelas margens, lá estava seu primo, o filho temporão de sua parenta Isabel, João Batista, que logo o reconheceu. Era um batismo de conversão e João era muito procurado e estimado por todos; e temido também, como nos mostram alguns episódios relatados.
Muitos homens lá estavam naquele dia, entre eles, dois que conhecemos: André, irmão de Simão Pedro - filhos de Jonas - e João, irmão de Tiago - filhos de Zebedeu. Eram pescadores e sempre que podiam, lá iam eles, porque gostavam de ouvir João Batista.
Ao sair da água, Jesus foi para o deserto, onde ficou por quarenta dias, diz a Bíblia. E ao retornar à sua casa, em Nazaré, sua mãe fala de uma festa de casamento para a qual haviam sido convidados.
Dias passando, a mãe preparando roupas novas para comparecerem dignamente, eufóricos com o acontecimento. Quase toda judia tinha em casa um tear, onde os tecidos eram feitos, principalmente utilizando a lã, proveniente da tosquia das ovelhas; lãs que recebiam cores diversas pela tintura feita em casa mesmo, com materiais de cores fortes, para um colorido diversificado. Tingidas, a lã, a seda, o linho, algodão, fibras diversas, e secas ao sol, era hora de cardar bem e levar ao tear, para a confecção.
Assim, em todas as casas dos convidados, certamente havia alguém muito atarefado, fazendo as roupas para o grande dia. E o que dizer da família dos noivos? Certamente, na maior preocupação com tudo o que deveria servir para a satisfação dos convivas. Ninguém queria certamente, passar vergonha com a falta de alimentos. Havia mesmo muito o que fazer, já que as festas de casamento duravam muitos dias!
Bem, deixemos os noivos e voltemos para Jesus e Maria, também com os preparativos, mas em menor preocupação. E Jesus, andando por ali, já havia conhecido alguns amigos, entre eles, André e João, que estavam presentes no dia do seu batismo, lá nas margens do rio Jordão e que haviam falado dele para os seus irmãos Pedro e Tiago. Eram pescadores e estavam sempre juntos e foi fácil para Jesus, fazer amizade com eles.
Uma amizade grande e sólida, que durou até a eternidade! Sempre que Jesus necessitava de um silêncio maior, ou mesmo de um ato do qual pediria segredo, Ele levava consigo Pedro, Tiago e João. Elogiava muito as atitudes de André também; eram seus amigos, de verdade e sabia que podia contar com eles, desde o início.
Mas... e a festa de casamento, como foi?... O que houve de tão importante nas Bodas de Caná, que me fez relatar tal fato neste texto? Importância ímpar, porque ninguém quer que uma festa termine tão rápido e de forma tão vergonhosa. Explico: o problema foi o vinho, a alma da festa naquela época, como o é hoje a cerveja ou chopp para os grandes e os sucos e refrigerantes para as crianças.
Sim! O vinho acabou. E aí? O que servir para continuar a alegria da festa? O vinho acabou! E agora?... Maria, a Mãe, percebeu o embaraço dos responsáveis e se prontificou a ajudar. Mas... como?
Como?... Ela não era a Mãe do Filho de Deus?... E Ele não estava ali com ela? Que fazer?... Tomou então uma decisão profundamente séria e - confiante!
_ Filho! Eles não têm mais vinho!...
E, analisando a resposta dele, aqui fica a dúvida: Ele não sabia mesmo que ainda não era a sua hora, ou Ele quis testar a fé de Sua Mãe?... Ninguém certamente saberá responder a esta pergunta...
O certo é que, após a fala dele, ela nada respondeu; simplesmente se dirigiu aos criados e lhes disse para fazerem tudo o que Ele dissesse. Foi só isto! Virou as costas - e saiu.
O que aconteceu então, todos sabemos, está lá na Bíblia, com todas as letras: alegria geral, vinho bom, o melhor que tinham degustado até então! Fantástico isto, não?... Seis talhas de um excelente vinho! Mais ou menos, seiscentos litros! É muito vinho, é grande a alegria, grande o milagre, grande a confiança de uma Mãe!
Mas não é este fato estupendo, o que mais me emociona na vida de Jesus, com relação ao vinho. Lá, bem lá na frente, após ter caminhado bastante com as pessoas de seu convívio, após a formação de um apostolado fiel e um discipulado mais ou menos numeroso, aconteceu o que é para mim, o grande e valioso milagre. Tão antigo e tão atual! Tão necessário e imprescindível em qualquer parte do universo!
Sempre me emociono ao falar disto. Jesus estava lá no Cenáculo, com os doze apóstolos. Poderia ser aquela uma ceia comum como tantas outras. Mas não foi! Foi o que de mais maravilhoso o Filho de Deus fez aqui na terra. Fantástico! Místico! Monumental!
Solenemente, Ele tomou o Pão, olhou para o Céu, abençoou - os apóstolos em completo silêncio! - e distribuiu; deu um pedaço a cada um dizendo: "Tomai e comei! Isto é o Meu Corpo." O quê?...
Tomou um cálice de vinho, olhou novamente para o Céu, abençoou. E disse: "Tomai e bebei! Isto é o Meu Sangue!" O quê??? Sangue?... E Ele continua: "O Sangue da nova e eterna Aliança." (Uma Aliança nova?...)
Cada um comeu seu pedaço de pão! - Silêncio... E todos beberam do cálice!... Silêncio!... Suspense...
E Ele disse mais: "Fazei isto em Minha Memória!" Como assim?...
Então, Ele estava se despedindo? Então, estava indo embora...
Como entender?... Como acreditar?!...
Entenderam - mais tarde. E acreditaram! Ele voltou à vida. Conversou com todos. Consolidou Sua doutrina. E comeu com eles, ainda... E falou mais... E explicou ainda muitas outras coisas. Disse que voltaria para o Pai, mas não os deixaria órfãos: mandaria o Espírito Santo e eles então, com essa luz, entenderiam tudo o que Ele havia explicado! Tudo, tudo, tudo seria lembrado e eles poderiam evangelizar o mundo inteiro!
Lembraram mesmo! E anotaram tudo. E levaram muito a sério, principalmente o “Fazei isto em minha memória.” É o ápice da nossa crença, o mais sublime da Religião que Ele criou, o mais belo milagre de todos os tempos e lugares do mundo inteiro!
Em todos os nossos altares, não faltam o Pão e o Vinho, alimentos que, após Aquelas Palavras, com a transubstanciação, já não são “pão e vinho”, mas, sim, o que Ele disse, naquela Ceia derradeira: Corpo e Sangue, que depois da Ceia se entregaram por nós, Corpo dilacerado pelos algozes, cruelmente açoitado, maltratado, crucificado; Sangue derramado, pelas ruas de Jerusalém, até a última gota, no Calvário!
Sim. “In Persona Christi”, o Sacerdote Católico, solenemente pronuncia as Palavras de Jesus. É o próprio Jesus quem nos fala, pela boca do Seu ungido. Isto tudo é muito lindo!
Quando alguém me pergunta sobre isto, talvez duvidando de um fato, tão real, quanto misterioso, eu simplesmente sugiro: Vá à internet – recurso de que todos hoje dispomos – pesquise sobre ‘Milagres Eucarísticos”. Você vai se surpreender ao constatar e confirmar esta grande Verdade: “Quantas vezes, em lugares diferentes do mundo inteiro, pingou sangue da Hóstia Consagrada!”
E digo mais: Pesquise também sobre o jovem italiano, Carlo Acutis, que catalogou mais de cento e trinta Milagres Eucarísticos, durante sua curta vida aqui na terra. Criança ainda, adolescente, ele evangelizava através da internet, com seu computador, sempre a serviço do Reino de Deus. Faleceu jovem, vítima de uma leucemia, que o levou à morte. Muito lindo e gratificante saber que, treze anos após sua morte, foi encontrado com o corpo incorrupto, vestido de calça jeans e tênis da Nike, ou seja, um jovem do nosso tempo, que conquistou a santificação, em tão pouco tempo de vida. Um santo dos nossos dias, um ser humano como qualquer um de nós, mas que soube valorizar principalmente, a Eucaristia, Cristo Vivo, naquilo que antes era um simples pão, como qualquer outro. Sintam o valor da Eucaristia!
O valor da Eucaristia! O valor da Igreja fundada por Jesus Cristo! Por isto, não podemos aceitar nada que fale de pão e vinho, após a transubstanciação. Não é mais pão, não é mais vinho - é Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo! Nem por uma fração de segundo, podemos duvidar desta Verdade Absoluta!
Uma distância enorme entre o pão e o vinho que oferecemos no início da Celebração, e o Corpo e Sangue, que recebemos, no final da mesma! Foi Jesus quem nos deixou este legado, foi Ele quem nos deu este presente, foi Ele quem, ao término de Sua Missão aqui na terra, precisando voltar para o Pai, quis continuar, fisicamente, conosco. E instituiu naquele momento, naquela ceia, a Santa Comunhão. Alguma dúvida?... E os apóstolos, primeiros Sacerdotes, primeiros Bispos, primeiro Papa - São Pedro – os doze, já que Judas Iscariotes foi substituído por Matias, os doze primeiros foram impondo as mãos sobre outros, chegando até os nossos dias, continuando pelos séculos dos séculos. Amém!
Eu disse, lá no início deste texto, que iria abordar o assunto, no enfoque bíblico, em três situações diferentes. Pois é. Falei da fantástica transformação de uns seiscentos litros de água, no melhor vinho que aqueles convidados poderiam degustar, naquela festa de casamento, em Caná da Galileia. Era somente água; Jesus transformou em vinho; jamais voltaria a ser água!
Falei da Eucaristia. Era pão e vinho. Foram transformados, pela ação do Espírito Santo, no Corpo e Sangue do Nosso Jesus; jamais voltarão a ser pão e vinho; jamais! Nós não comungamos pão e vinho; comungamos o Corpo de Cristo, tão vivo, perfeito e maravilhoso como está no céu; e como estava aqui na terra conosco, caminhando com seus apóstolos e discípulos! Cremos firmemente nesta Verdade Absoluta!
E o terceiro enfoque?... Os dois estão lá na Bíblia, ao alcance de todos. E onde está o terceiro?...
Na verdade, estou chamando a este, de terceiro enfoque; porém, ele seria o primeiro, porque anterior aos demais. Mas este, eu não achei na Bíblia Sagrada. Aliás, se fossem relatar em livros, tudo o que Jesus fez aqui na terra, disse São João, o Evangelista, "nem no mundo inteiro caberiam todos os livros com as ações, de Jesus no tempo em que aqui esteve, entre nós" - João, capítulo 21, versículo 25!
No terceiro enfoque, vou falar de duas pessoas muito importantes para nós. católicos: Jesus e Maria. Sim, os dois, da Sagrada Família, porque São José, o chefe da mesma, já havia falecido, de acordo com as fontes mui fidedignas que tenho.
Estavam os dois, naquela salinha, na humilde casa de Nazaré. É a mística italiana, Maria Valtorta, que em sua grande obra, O EVANGELHO COMO ME FOI REVELADO, nos relata, no Volume Primeiro de sua obra, a despedida dos dois, Mãe e Filho, despedida difícil, já que, agora, ela, que vivera trinta anos com seu fiel esposo José, ficaria sozinha; e o Filho Jesus, em Suas andanças pelo mundo, iria formar Seu discipulado, falando do reino de Deus.
Conheçamos esta visão de Maria Valtorta, que se encontra na página 273, no capítulo 44, intitulado, "Jesus se despede de Sua Mãe e deixa Nazaré. O pranto e a Oração da Co-Redentora". Ela relata-nos o seguinte:
"Vejo o interior da casa de Nazaré. Nela vejo uma sala, parece uma sala de Família, onde a Família faz as suas refeições, ficando também nas horas de descanso. É uma salinha muito pequena, com uma simples mesa retangular que está em frente de uma espécie de arquibanco, encostado à parede. Ele serve de assento para um dos lados da mesa. Junto às outras paredes estão um tear e um banco, dois outros bancos e uma estante sobre a qual estão algumas candeias e outros objetos. Uma porta abre-se para a horta-pomar. Deve estar anoitecendo, porque não tem nada senão uma lembrança de sol sobre a copa de uma árvore, que começa a verdejar com suas primeiras folhas.
Jesus está á mesa. Ele está comendo, Maria o serve, indo e vindo, por uma portinha, a qual suponho que conduz ao lugar onde está a lareira, da qual se vê o clarão, através da porta entreaberta.
Jesus diz duas ou três vezes a Maria, que se assente... e coma também. Mas ela não quer, sacode a cabeça, sorrindo tristemente, e, depois das verduras cozidas, que me parece estar em lugar da sopa, leva para a mesa, peixes assados, um queijo fresco, feito de leite de ovelha e em forma de pequenas bolas parecidas com uma daquelas pedras que se encontram no fundo dos córregos, e azeitonas pequenas e escuras. O pão, feito em pequenas formas redondas (da largura de um prato comum) e de pouca altura, já está sobre a mesa. É um tanto escuro, que não deve ter sido feito com o farelo. Jesus tem diante de Si, uma ânfora e uma taça. Come em silêncio, olhando para a Mãe, com um doloroso amor.
É visível o sofrimento de Maria. Ela vai e vem, para mostrar compostura. Ainda há luz suficiente, mas ela acende uma candeia, e a coloca perto de Jesus. Ao esticar o braço para isso, acaricia a cabeça de seu Filho furtivamente, torna a abrir um alforje, que me parece feito com aqueles tecidos feitos à mão, com lã virgem sendo, impermeável, da cor de avelã. Ela procura dentro alguma coisa, sai para o pequeno pomar e vai até lá no fundo, em uma espécie de esconderijo, saindo com umas maçãs um pouco murchas, que certamente se conservaram desde o verão, colocando-as no alforje. Depois pega um pão e um queijo e os põe junto, por mais que Jesus não queira, dizendo que o que está lá dentro já basta.
Maria se aproxima da mesa novamente, do lado da passagem mais estreita, à esquerda de Jesus, e fica olhando-O comer. Ela olha para Ele com angústia, com adoração, com o rosto ainda mais pálido que de costume e que o sofrimento faz parecer ter envelhecido, com os olhos maiores, marcados com uma sombra, indícios de lágrimas já derramadas. Parecem também mais claros que de costume, como se tivessem sido lavados pelo pranto presente neles, pronto para cair. São dois olhos cheios de dor e de cansaço.
Jesus, que come devagar e claramente contra a vontade, somente para contentar a Mãe, está mais pensativo do que habitualmente, levanta a cabeça e a olha. Encontra um olhar cheio de lágrimas, inclinando então a cabeça para deixá-la mais à vontade, limitando-se a segurá-la pela delicada mão que ela está apoiando à beira da mesa. Jesus a pega com sua esquerda e a leva até à sua própria face e a apoia nela, por um momento, para sentir a carícia daquela pobre mãozinha que está tremendo, depois a beija no dorso com muito amor e respeito.
Vejo Maria levar à boca, sua mão livre, a esquerda, como para sufocar um soluço. Em seguida, ela enxuga com os dedos, uma grande lágrima que lhe escapou dos cílios, banhando-lhe a face.
Jesus continua a comer, e Maria sai rapidamente para o pequeno pomar, onde a luz já é bem pouca, e desaparece. Jesus apoia o cotovelo esquerdo sobre a mesa, e sobre a mão apoia a fronte, mergulhando-se em seus pensamentos, parando de comer.
Depois parece escutar algo e se levanta. Sai também Ele para o pomar, e, ao dar uma olhada ao redor, dirige-se à direita, em relação ao lado da casa, entrando, pela abertura de uma parede rochosa, em um quarto que eu reconheço ser a oficina do carpinteiro, que desta vez está toda em ordem, sem tábuas, nem maravalhas, e sem o fogo aceso. Ali estão o banco grande e os utensílios, tudo em seus lugares, só isso.
Curvada sobre o banco, Maria está chorando. Parece uma menina. Está com a cabeça sobre o braço esquerdo dobrado, e chora sem fazer barulho, mas com grande dor. Jesus entra devagar, e se aproxima dela, tão levemente que ela só percebe que Ele está ali, quando o Filho lhe pousa a mão sobre a cabeça inclinada, chamando-a: "Mãe!", com uma voz de amorosa censura.
Maria levanta a cabeça, olha para Jesus, através de um véu de lágrimas, e se apoia Nele com as duas mãos unidas, segurando-O pelo braço direito. Jesus lhe enxuga o rosto com a beira de sua larga manga, e, depois a abraça, atraindo-a sobre o seu coração e beijando-a na fronte. Jesus está majestoso, parece mais viril que de costume, e Maria parece mais menina, exceto no rosto, que está marcado pela dor.
- Vem, Mãe - lhe diz Jesus e, segurando-a apertada contra Si pelo braço direito, dirige-se para o pomar, onde se assenta em um banco, à frente da parede da casa. O pomar está silencioso, e, enfim, escuro. Vê-se apenas um belo luar e a luz que vem da sala de jantar. A noite está serena.
Jesus fala a Maria. A princípio, não entendo as palavras, apenas murmuradas, às quais Maria, com a cabeça, assente. Depois, eu ouço:
_ Faz que venham os parentes. Não fiques sozinha. Eu ficarei mais tranquilo, Mãe, e tu sabes que preciso estar tranquilo para cumprir a minha missão. O meu amor não te faltará. Eu virei frequentemente e mandarei avisar-te quando estiver na Galileia, não podendo vir até em casa. Nesse caso, tu irás a mim. Mãe, esta hora tinha que chegar. Ela começou aqui, quando o Anjo te apareceu; agora ela chegou, nós devemos vivê-la, não é, Mãe? Depois virá a paz, da provação superada, e a alegria. Primeiro, precisamos atravessar este deserto como os antigos Pais fizeram para entrarem na Terra Prometida. Mas o Senhor Deus nos ajudará, como ajudou a eles. E nos dará a sua ajuda como um maná espiritual para nutrir o nosso espírito no esforço da prova. Vamos dizer o Pai-nosso...
Jesus se levanta, e Maria com Ele, erguendo os rostos ao céu. Duas hóstias vivas, que brilham na escuridão.
Jesus diz lentamente, mas com voz clara, e, destacando as palavras, a oração dominical. Destaca de modo especial as palavras destas frases: "Venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade", separando bem estas duas frases das outras. Ele reza com os braços abertos, não propriamente em cruz, mas como fazem os sacerdotes, quando se dirigem ao povo, dizendo; "O Senhor esteja convosco!" Maria conserva suas mãos unidas.
Depois, voltam para casa e Jesus, que eu nunca vi beber vinho, despeja em uma taça, de uma ânfora apanhada na estante, um pouco de vinho branco e o leva para a mesa, pega Maria pela mão, e faz que ela se assente perto Dele e beba daquele vinho, no qual molha uma pequena fatia de pão, fazendo, depois, que ela o coma. A insistência dele é tanta, que Maria cede. Jesus bebe o que resta do vinho. Depois disso, aperta a Mãe ao Seu lado e a segura assim junto ao seu corpo, pela parte do coração. Nem Jesus, nem Maria estão deitados, mas sentados como nós nos sentamos. Não estão falando mais. Estão esperando. Maria acaricia a mão direita de Jesus e seus joelhos. Jesus faz uma carícia ao braço e à cabeça de Maria.
Em seguida, Jesus se levanta, e Maria também, e se abraçam e se beijam amorosamente muitas vezes. Parece que querem se deixar, mas Maria torna a apertar contra si o seu Filho. É a Virgem Santa, mas é uma Mãe enfim, uma Mãe que precisa separar-se de seu Filho, sabendo qual vai ser o fim daquela separação. Ninguém me venha mais dizer que Maria não sofreu. Antes, acreditava pouco nisso, mas agora estou convencida.
Jesus pega o manto (azul escuro) e joga-o sobre as costas e a cabeça, como um capuz. Depois pendura a tiracolo, o alforje, de modo que não lhe dificulte o andar. Maria o ajuda, parece que não vai terminar nunca de ajustar-lhe a roupa, o manto e o capuz. E, enquanto assim faz, ela ainda O acaricia.
Jesus vai até a saída, depois de ter traçado um gesto de bênção sobre a sala. Maria O acompanha e, à porta, que já está aberta, eles se beijam de novo.
A rua está silenciosa e solitária, toda branca ao luar. Jesus vai caminhando. Vira-se ainda duas vezes para olhar a mãe, que ficou apoiada no umbral da porta, mais branca do que a lua, e soltando lágrimas que brilham em um pranto silencioso. Jesus vai ficando cada vez mais longe, indo pela ruazinha branca. Maria continua chorando junto à porta. Depois, Jesus desaparece numa das curvas do caminho.
Começou o seu caminho de Evangelizador, que terminará no Gólgota. Maria entra chorando, e fecha a porta. Também para ela, começou o caminho que a levará ao Gólgota. Tudo por nós..."
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O que dizer, depois de tudo isto?! Apenas concluo o meu texto, dizendo que, hoje, eu posso comungar todos os dias, como muitas outras pessoas de comunhão diária. Mas agora sabemos: Maria foi a primeira a comungar! Pão e vinho, oferecidos a ela pelo próprio Jesus, oferecendo-se, ambos, a Deus, Hóstias Vivas, naquele momento de angústias e dores!
Procure na internet sobre Maria Valtorta. Você vai gostar de saber das suas obras, principalmente, desta que aqui eu cito: O EVANGELHO COMO ME FOI REVELADO, em dez volumes, os quais eu já gravei em áudio uma vez, para ouvintes muito seletos - e estou gravando de novo os 652 capítulos, alguns enormes, gotas que vamos degustando diariamente, em pequenas doses! Espero que tenham gostado deste pouquinho que aqui deixei.
(Celina - Sete Lagoas - 07/02/25)
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